domingo, 18 de setembro de 2011

exercício

Sobre a distância ele podia falar quase tudo, menos da impossibilidade. Duvidava dessa palavra definitiva, entendia o mundo como um escancarado devir. Por isso foi, já acostumado a tanto ir, a tanto andar. Trazia todo o princípio consigo, mas viveria apenas de continuidades agora. Nada de recomeços, porque não era de esquecer. Também não era de lembrar; era todo memória levada no corpo, das manhãs às noites, como uma informação processando em default. Também não colocava nada ali no vazio que o sustentava. Só permitir tudo o que foi e o que virá. Um homem sem medos.
Encontrou entre cinza e fumaça, vermelhos vibrantes e amarelos pálidos. Cobriu-se de azul e cuspiu tons de terra e cobre. Viveu. Apenas indo para frente. Até encontrar a palavra encantadora: ininteligível, indecifrvel, quente, enviada - na verdade, devolvida -  diretamente pro centro de sua alma vagante. Sem direção, deu uma volta em torno do próprio vazio. Paralisado, resolveu obecer a ordem daquela nova loucura. Soube-se aprisionado por uma linguagem estranha, um código sem silêncios. Pela primeira vez, considerou que ir era fugir. E desejou.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

eu que pensei ser salva pela poesia, já engulo água.
qual tempo, esse, de esperança em versos?
qual modo, o das delicadezas ditas serem
banco de areia, barra, coral?
eu que em sonho nadei
no mar das palavras
nem derivo mais

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pequena teoria do beijo

O beijo é, na economia do mundo, do corpo ou da imaginação, coisa poderosa. Marco sensorial da contabilidade dos dias leves e dos estratagemas bélicos, é um roçar de lingua na vida, pungente ou morno. O beijo é um devorar macio do outro, de quem nos alimentamos para suportar os dias de solidão e mastigação saudável. O beijo é a recusa da racionalidade prática aplicada à rotina da boca - uma completa indiferença ante a composição bioquímica e biográfica da saliva. O beijo é um ato rebelde - das causas mínimas e máximas: se opõe ao conservadorismo dos corpos estáveis. Beija, quem quer pular de si para o abismo do outro. Beija, quem quer salvar-se da monotonia da alma intáctil. Beijam-se,  línguas curiosas, lábios receptivos e corpos silenciosos. Muitas vezes, beijam-se, apenas, os corpos. O beijo resiste expondo o amor a pequenos testes sem comprová-lo. Apesar de sua breve duração, ilude os amantes com lampejos de imortalidade.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Objeto de desejo II - "Leia sua estante"


"Read your bookcase". Adorei. O design é de Eva Alessandrini e Roberto Saporiti, para a italiana Saporiti.
Catei lá no blog do Almir de Freitas http://www.almirdefreitas.com.br/blog

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Mulherzinhas

Em casa de minha mãe havia muitas meninas. Mulheres, ficamos distantes. Antes aprendemos uma força qualquer, uma inteperança no partir, um medo que nos obrigava à insurgência. E fomos com nossos cavaleiros para reinos evanescentes. Seis mulheres com suas pequenas fábulas costuradas de retalhos antigos. Apesar, nossa solidariedade esteve lá.. Compreensão construída nas pazes feitas após brigas de puxar cabelo.
Ser mulher não veio com facilidade pra nós. Por isso tento entender os códigos partidos.
E sendo mulher crescida na aridez de modelos femininos livres, questiono o agora e lembro que sonhava um tempo de não ter que aceitar uma condição menor que viver o binômio liberdade-verdade.
Ainda não chegou e talvez não chegue. Mas há muito porque lutar, mesmo para aquelas que já manejam o mundo do homem com seus colhões simbólicos. No mínimo, por um mundo em que não mais tomaremos metáforas do universo macho - colhões, bolas, fio do bigode, bala na agulha - para falar de poder e força.
Imagine o mundo ocidental na versão feminina. Como seria o trabalho, o amor, o sexo, o casamento, a maternidade, a escola, a casa, pensados a partir de uma estética e uma ética cuja base é o poder feminino? Não almejo tal cenário. Conheço-me. Demoraria milênios para desnudar todo o olhar construído a partir do referencial masculino. Mas almejo tempo de irmandade, de compreensão legítimas, de diálogo aberto, de possibilidades para além da visão dual que está na raiz do "do dá ou desce"; da visão binária de construção da vida, que o poder masculino nos legou.
Um tempo em que não nos culparemos mutuamente por sermos mais fortes ou mais frágeis, mas bonitas ou mais feias, mas livres ou mais aprisionadas, mas flácidas ou mais duras, mas duras ou mais flexíveis, sem enxergamos o quanto somos mais do mesmo.