quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009


Eis o Alan Pauls. Ele disse que se os homens não existissem, nós, mulheres, os inventaríamos como fazemos todos os dias.
Ãhã....

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Perguntas e seduções

Imagem: Sea Serpents -Gustave Klint






Não resisti. Primeiro ao "Livro da Perguntas", da Cosac Naify, capa dura, sobrecapa e perguntas-poemas/poemas-perguntas póstumos do Neruda com tradução do Ferreira Gullar e ilustrações maravilhosas feitas com recortes de papel de um artista chamado Isidro Ferrer.

Depois, ao charme (e que charme) do escritor argentino Alan Pauls que vi na tv fazendo uma pergunta (elas de novo) para as apresentadoras (que pagaram o maior pau) do Saia Justa da GNT. Ele queria saber o que elas fariam se os homens não existissem.


Pergunta que vale só pras mulheres, não é? Não estou certa.


Eu pensei, na hora, na Moça Tecelã da Marina Colasanti que, na falta, teceu o dela e se arrependeu. Eu queria tecer uns trinta, pro caso de me arrepender, mas aí que garantias teria?... na verdade não tive uma resposta. Já ele, alcançou o propósito de nos fazer confessar nossa incompletude.

Então... deixo a pergunta no ar e não vou contar, pra quem não viu, a resposta (astuta) que o próprio autor deu. Não agora. Pro caso de alguém querer refletir sobre o causo.


E eu não resisti, como disse. Fui procurar os livros do Pauls. Não comprei "O passado", que aliás virou filme, porque estava muito caro (59 reais) e pensei que depois eu poderia conseguir - se gostasse da escrita - com desconto com a moça da editora que eu conheço e que é muito legal. Assim, minha fraqueza cedeu apenas ao "História do Pranto" de 29 reis na Livraria Saraiva, lançamento também da Cosac.
Eu gosto. É um livro com certa afetação, mas que a gente consegue deslizar, apesar dos parágrafos longos e das inúmeras frases intercaladas que são coisas de estilo. O universo que ele apresenta é tão familiar, íntimo - e meio pop, que quando a gente embarca, nem percebe o burilamente do texto, ou melhor: percebe só porque se depara com coisas belíssimas e aí você pula, fácil, da história pro texto e vice-versa.

Pra experimentar:







do Livro das Perguntas de
Pablo Neruda (Cosac & Naify, 2008, 182 p.)
...
Como se chama a flor
que voa de pássaro em pássaro?
...

Que acontece às adorinhas
que chegam tarde ao colégio?

É verdade que espalham
cartas transparente no céu?

...
As lágrimas que não choramos
esperam em pequenos lagos?

Ou serão rios invisíveis
que correm para a tristeza?

...
Como agradecer às nuvens
essa abundânca fugidia?


Da "História do Pranto" de Alan Pauls ( Cosac e Naify, 2008, 88 p.)

"[...] quando algo lhe chega do mundo com um sorriso nos lábios, quando um sinal de alguma forma de felicidade, não importa se tênue ou flagrante, parece apelar para sua cumplicidade ou pedir consideração. A única coisa que se lhe dá fazer nesses casos, e ele o faz sem pensar, mecanicamente, respondendo a algum tipo de programação secreta, é se comportar como um consumidor treinado, sempre alerta a detectar a astúcia com que pretendem enganá-lo: investir contra, rasgar o véu sorridente com que a felicidade se lhe apresenta, atravessá-lo e deparar com o obscuro coágulo de dor que oculta e do qual, segundo ele, e talvez essa seja uma das coisas que mais o sublevam, essa espécie de parasitismo jamais confessado não faz senão se alimentar. Isso quando não lhe dá na veneta fazer alguma coisa. Porque na maioria das vezes nem chega a isso. É tal a inquietude, e tão esmagador o abatimento que o invade, que solta os braços, deixa-se cair, desvia o rosto e olha para o lado."

E eu ainda sonho em escrever um dia... tsk, tsk, tsk.


Me ocorre, agora: que tipo de pergunta seduz? Algumas seduções, isso eu sei, vêm em forma de pergunta: das mais vulgares cantadas às indagações que nos faz o tempo e que nos trancam momentaneamente pelo lado de fora.

Lembra de alguma pergunta sedutora?

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Dos erros


Viram? Eu escrevi duas palavras erradas no outro post.

Problemas de ortografia e regência, me alertaram.

Queria que na vida fosse assim: depois de alertada dos erros,
a gente pudesse voltar atrás
e não dar a mínima.




"Nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez
"


- "La vie en close", de Paulo Leminski
Foto: Sally Mann - Candy Cigarrete, 1989

sábado, 13 de dezembro de 2008

A aula como acontecimento *


Talvez por ter sido apenas uma aluna razoável, me esforçe bastante pra ser uma boa professora. Mas reconheço que quase tudo que nós, professores, fazemos/falamos na sala de aula cai a conta-gotas no grande oceano de saberes,vivências, imaginação, recusas, problemas, amores, desconfiança, descrétido, enfim, na maçaroca de fios que conectam a cabeça dos alunos.

Não por falta de esforço, como disse, nem por causa dos alunos, como é preciso dizer. Tem discurso pior de professor do que o famoso "Eles não querem nada?" Como alguém pode achar que é possível não se querer nada? Não seria mais honesto dizer: Eu não quero oferecer nada do que eles querem?

Bom, mas enquanto estamos lá, tentando fazer com que algo específico aconteça, na maioria das vezes, o que acontece de verdade está completamente fora da nossa visão e do nosso controle. E, geralmente, o que de fato acontece é muito mais rico e interessante do que somos capazes de planejar, ver ou controlar.

Me lembro algumas ocasiões em que algo aconteceu efetivamente, isto é, aconteceu com todo o sentido da palavra acontecimento.

Duas vezes, uma enquanto dava aula de Didática na Faculdade de Educação da UFBA e outra enquanto fazia minha pesquisa de mestrado com professores numa Escola Municipal de Salvador, entrou voando pela sala um passarinho, uma rolinha dessas bem comuns. Foi incrível. Mudou a emoção da aula. No começo, foi uma tensão enorme, pois, nos dois casos, os passarinhos ficaram se debatendo nas janelas tentando sair. Nas duas vezes, é claro, paramos o trabalho pra acudir os coitadinhos. O curioso é que depois desse fato, houve uma cumplicidade diferente minha com o grupo e, acho, que dos alunos/professores comigo. Eu penso que numa sala de adultos é preciso que muita coisa aconteça pra que os muram comecem a cair. E um passarinho voando é muita coisa, descobri.

Outro fato nessa linha está gravado na minha memória como uma imagem incrivelmente linda, que espero, um dia, poder (d)escrever melhor. Era fim de tarde e dava aula na sala 16 da Faced e, quando olhei pela janela, vi uma maravilhosa chuva de pequenas flores amarelas caindo de uma das árvores que formam uma cortina verde nos fundos da Faculdade. O que era mais louco: transversalmente se via os raios de sol iluminando aquele fenômeno como um canhão de luz em um palco. As florzinhas caiam em grande quantidade como se nevasse. Parei a aula e pedi que as alunas olhassem pela janela. Naquela sala só tinha professoras da rede pública, todas já com bastante experiência e elas não se negaram a olhar. Eram alunas do projeto Salvador, um curso de graduação para professoras da rede municipal. Testemunhamos aquilo e voltamos para nossa aula, para a parte do planejamento, do conta-gotas...

Passamos o semestre e tinha esquecido um pouco desse fato. No último dia de aula, porém, uma aluna pediu pra ler uma poema que tinha feito, não pra me homenagear como pessoa, mas sobre a disciplina, a experiência, o acontecimento. Fiquei emocionada pois ela se referia àquele dia. É o poema que transcrevo abaixo. Foi uma das coisas mais bonitas que aconteceram durante as minhas aulas: a inspiração para um poema.

ABCD** à tardinha


(Jocélia Freitas)


No silêncio da tardinha

Fenômeno estava acontecendo

Folhas passavam pelos vidros

A primavera enfim se fazendo

Emoções, suspiros, poucos ruídos


As tardes na academia

Lindas histórias aconteciam

Sonhos, vida e fantasias

Ambientes serenos se faziam

Suspense, delírio, sabedoria


* Título emprestado de um texto interessantíssimo do João Wanderley Geraldi. Pena que não está publicado no Brasil, só em Portugal. Tenho um exemplar que ele mesmo me enviou e não dou, pode ser que empreste, e nunquinha venderei.. hehe
** ABCD é o nome da disciplina: "Aquisições básicas das capacidades discursivas no oral e no escrito".

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Beliscando as sobras de ontem à noite


"Nem vou clicar nesse link, o passado pode pular pra fora."

"Trocar nozes por castanha-do-pará no pesto não é nenhum ato de coragem"

"Um blog abandonado não é nada; dois é sinal de desapego aos bens ciber...ego... tríp..icos; três já é descaso absoluto com meu lado que pensa que é Fernando Pessoa."

"Há uma profunda e silenciosa conversa enquanto se dá um abraço; às vezes um abraço atropela as palavras."

"Ser fã de amigo é muito legal."

"As casas é que criam as pessoas e cuidam delas até elas crescerem... ou morrerem."

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Espaço interno

Tom Baril - Flower



"Um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas." (Machado de Assis)


"Os desvãos me constam". (Manoel de Barros)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Além Mundo




CENA

Altas torres.
Longos rios.

FADA

Toma em teu dedo a aliança
usada por teus avós.
Cem mãos debaixo da terra
estão sentindo-lhe a falta

EU

Vou sentir em minhas mãos
uma imensa flor de dedos
e o símbolo desse anel.
Não o quero.

Altas torres.
Longos Rios.



Federico Garcia Lorca