domingo, 17 de maio de 2009

Não sou leve.

Minhas dúvidas

meu pente de osso

meus propósitos

um sopro intermitente atrás da orelha

a metade de uma dor que ainda me assalta o sono

o amor

e o medo que levo por precaução

são necessários para que eu me sustente sob mim.

Imagem: Mariana Massarani

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Beth - querida - Hazin


Nasceu em Recife, em 1951. Doutora em Teoria literária pela Universidade de São Paulo, com especialização em Literatura inglesa pela Universidade de Londres. Professora da Universidade de Brasília e pós-doutorado em Roma. Obra poética: Poesias (19740, Verso e reverso (1977), Casa de vidro (1981), Arco-íris (1983, infantil), Espelho meu (1985), Martu (2006), O arqueiro e a lua (1994). Ganhou vários prêmios de poesia.



PRINCÍPIO DO FIM


Por que nada permanece inteiriço
em sua casca,
protegido?
um dia racha
e pela fenda
passam peixes e navios
fantasmas que na noite ganham vulto:
fogo, chama, fumaça

nada permanece inteiro
tudo se esgarça
assim é o intervalado texto do destino,
forrando a mesa

por que não se estende eterno,
se é tão fino?

por que não dura a inteireza?




Extraído de BRIC-A-BRAC. Brasília, 2007. Catálogo da exposição coordenada por Luis Turiba, com curadoria de Marilia Panitz, no Centro Cultural da Caixa.

quinta-feira, 26 de março de 2009

BLOG FANTASMA


Este blog é assustador!
...
...
... tem alguém aí?

Sedução

Mark Rothko


Adelia Prado

A poesia me pega com sua roda dentada,


me força a escutar imóvel


o seu discurso esdrúxulo.


Me abraça detrás do muro,


levanta a saia pra eu ver, amorosa e doida.


Acontece a má coisa, eu lhe digo,


também sou filho de Deus,


me deixa desesperar.


Ela responde passando


a língua quente em meu pescoço,


fala pau pra me acalmar,


fala pedra, geometria,


se descuida e fica meiga,


aproveito pra me safar.


Eu corro ela corre mais,


eu grito ela grita mais,


sete demônios mais forte.


Me pega a ponta do pé


e vem até na cabeça,


fazendo sulcos profundos.


É de ferro a roda dentada dela.

sábado, 7 de março de 2009

Pequena sabedoria


Sabe, um gêiser, aquele da revista do Tio Patinhas?
Sabe, as gotas, que caem de si mesmas?
Sabe, o desejo que abre a janela ao meio dia?
Sabe, o doce no que é azedo?
O fascínio no enigma?

Sabe, a espera e o susto?
Lágrima seca?

Sabe, a mão sobre a barriga?
Sabe, a palavra barriga?

Sabe, ver a pulsação sem toque?
Sabe, quente?
A beleza sem aviso?

Sabe quando há silêncio?
quando não há alma
quando se perdeu a chance
quando flagramos o dia?

Sabe quando se sabe?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Adoro o filme Flashdance, um dos meus preferidos. Pra mim, certos filmes funcionam como máquinas do tempo. Esse, não tem jeito, me faz sentir de novo aos treze. A trilha é ótima, me lembra as festas na casa do meu primo, na década de 80. Cenas inesquecíveis como aquela da câmera passando pelos pés das bailarinas, partindo da botina da Alex. Reconheci,de imediato,logo que vi, aquela sensação de se sentir um peixe fora d'água em certo ambientes.
Outra trilha que amo é do Beleza Roubada. Steve Wonder na melhor fase e Portishead.
As reminiscências são inevitáveis também quanto vejo Doutor Jivago, que vi pela TV no dia que dei meu primeiro beijo, e com Asas do Desejo do Win Wenders, que vi no Cine Sesc na primeira vez que fui a São Paulo quando ainda namorava meu marido. Neste cinema se podia fumar e beber em um reservado enquanto se via o filme. Além da beleza do filme em si, me emociono porque nunca deixo de lembrar daquele momento inusitado de estar no bar e no cinema ao mesmo tempo.
Amo cinema. Das coisas mais americanizadas como Flashdance, Gremlin e os musicais dos anos 50, até Abbas Kiarostami, Lars Von Trier e o dogma 95 ou Chan-wook Park e seu Old Boy.
Dos que vi ultimamente, destaque para O Leitor. Dava uma discussão ótima sobre a leitura. Apesar de parecer uma história sobre a culpa dos alemãs por causa do nazismo (confesso que já enchi de tantos filmes sobre o holocausto), me parece mais uma história sobre a leitura como fetiche. E desconstrói a idéia de que ler é sempre um saber elevado, transformador. A leitura, no filme, se equipara ao sexo: essencialmente prazer, e também um valor moderno, sobre o qual se criam mitos e que produz exclusão.
Vale a pena.